terça-feira, 17 de abril de 2007

Beija-flor do Maracanã

A cena se passou a beira do balcão de um pé sujo da zona norte, estrategicamente posicionado em frente a uma universidade. Como um professor faltara, dois amigos resolveram tomar uma cerveja para por o papo em dia. Ambos eram filhos de classe média, bem nascidos, bem providos. O objeto da conversa era a recente estadia de um deles em Londres. Absortos em suas confabulações, os amigos mal perceberam um rapaz que entrou no boteco e se sentou ao lado deles, também no balcão. Maltrapilho, contava os despojos de uma guerra silenciosa travada nas ruas. Pediu refrigerante e amendoim: o dia havia sido bom. E ali naquele balcão de um boteco sujo da zona norte tudo ficou muito claro. Tão claro que doia. A proximidade física mascarava a distância social. Duas realidades que nunca se encontrariam, salvo nos sinais fugazes. Diferentes temporalidades. E os amigos, após finda a cerveja, se levantaram calados e um tanto quanto envergonhados de estarem maldizendo suas realidades, sonhando com cidades distantes e mulheres perfeitas. No estacionamento se despediram, cada um para seu carro, cada um para sua casa na zona sul. Durante a volta, um dos estudantes cogitava sobre o que havia sentido...seria culpa burguesa? Hipocrisia? Não importa...

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Sinergia!!

A idéia para a composição deste pequeno texto surgiu de minha análise do estilo da Paula G. (http://umbigodepaula.blogspot.com). Quis brindá-la com um texto que fosse ao seu estilo, e assim ele foi feito e, com muito orgulho, ela adorou a pequena lembrança e, não satisfeita, se deu ao trabalho de confeccionar um texto em resposta ao meu. Paulinha, muito obrigado pela sinergia!!

A Moda de Paula G.

esperava-te na estação. filha da puta, estava atrasada. enquanto esperava, pensava em tudo que havia ocorrido. um beijo, uma trepada, uma paixão. cacete que idiota, caí na sua armadilha. ouvia the smiths pensando nas tuas coxas grossas. aposto que está atrasada porque está dando pra algum filha da puta que entende mais de coltrane que eu. foda-se. a verdade é que você nunca vai ter um caralho igual ao meu. isso você sabe. isso é o que eu penso. isso é minha esperança. que você nunca mais apareça...não quero mais te ver. vou pegar esse trem sozinho...eu, meu golden virginia, meu ipod de merda, meu david harvey que você nunca quis ler ou compreender. você acha que vestir-se bem e pensar alguma coisa além do fugaz a faz a pessoa mais maravilhosa do mundo? vai para aquele lugar...tá pensando o que? também falo três linguas e estudo em faculdade de referência. e o que mais? Só porque você sabe combinar uma saia com uma blusa e se transforma na menina mais linda da cidade...de listras...você acha que pode fazer isso comigo? cacete...juro que vou te degolar.. te emprestei todo meu acervo de mp3, mais de uma caralhada de música e você nunca me agradeceu...te dei o dvd do portishead e você nunca me chamou para ver...comprei duas gramas de hash e você fumou com outro...e agora essa?! comprei essa passagem pra ver se dava pra resolver essa coisa toda que você começou discutindo relação e ouvindo electrelane e chorando pedindo suas amigas e saindo e tomando aquela porcaria de suco do bibi. vou pegar esse trem e te esquecer porque não dá mais não aguento mais sua falta de consideração...você nunca me devolveu meu original do apanhador no campo de centeio e destroi meu sonho de ser caufield. caralho eu sou caufield O niilista só você que não enxerga isso...quer saber vou parar de pensar em você agora mesmo. vai abrir suas pernas para outra pessoa pra alguem que aguente dar seis fodas por noite e não fique sem folego e nem fume um cigarro. é eu fumo mesmo e quero que você vá para o caralho.

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Direito de Resposta, por Paula G. (http://umbigodepaula.blogspot.com)

Ele me jura amor eterno (até o próximo mês) e espera que eu chegue na hora certa.Me mostra seu corpo,seu cheiro,suas entranhas,sua vida,e espera que eu chegue aqui pontualmente derramando sobre ele todo amor que eu guardei pra ninguém.Acontece que eu vim,personagem daqueles filmes idiotas em que a mulher sai correndo pra estação,mas ele não estava no trem.E não estava ali por perto,cigarro na mão ( à la française),com aquela cara blaseé característica dele.Ele,ele,ele...Ele me pediu amor eterno com o olhar depois de cada uma daquelas noites infindáveis que sempre acabavam durante o dia,vendo o sol nascer bêbados como dois idiotas que somos,falando sobre a impossibilidade de fidelidade nos dias de hoje estando completamente apaixonados um pelo outro.Babaca,acha que ter um exemplar do apanhador no campo de centeio e ouvir a droga do portishead faz de você o cara mais pirocudo e interessante do mundo?Só porque sabe juntar meia dúzias de palavras bonitinhas e escolher um vinho bom não quer dizer que você é o poeta maldito da década,só porque fala suas palavras difíceis e jorra durante horas sua filosofia barata de botequim não significa que só você pode entender e suprir tudo o que eu quero que não é palpável,que não se preenche.E é por isso que você quis,porque no fundo cara,eu sou você,e você reconheceu em mim não a resposta para suas questões,mas alguém tão egoísta e não amável quanto.Mas a grande diferença entre eu e você,é que hoje eu vim,e abandonei tudo,e fiz a mala,e fui exatamente o tipo de pessoa que eu sempre evitei ser,e dei minha cara a tapa,me joguei na possibilidade de amor que você me ofereceu,mas você é patético,e covarde,e não estava lá,e porque eu tenho certeza absoluta que agora você está fingindo ser caufield pra uma menina que além de fazer direito na UFRJ,deve querer trepar com você ao som do último cd do Jack Johnson,é que eu vou entrar nesse trem,sem a menor idéia de onde ir,sem a menor expectativa no que vai dar.Porque agora é assim,e a partir de hoje você é só resquício,e um livro jogado no fundo de uma gaveta junto com toda a vida que nós não tivemos.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

O quarto

E ela vivia em seu quarto.

Namoro em casa e todas aquelas formalidades. Conheçeu apenas uma pessoa e já se casou. Assim eram os tempos pretéritos. Estudou apenas o primário. Teve quatro filhos, dois homens e duas mulheres. Seu marido prosperou e tornou-se cidadão-modelo: juiz de direito. E aí começaram as ligações e cartas anônimas, que já revelavam o distanciamento. Chorou. Chorou. A situação chegou ao ponto do insuportável. Desquitou-se. Sua filha fez o divórcio. Chorou. Chorou. Seu grande amor, seu único amor, a única pessoa que ela havia se entregado, a única pessoa que ela havia cogitado, essa pessoa a traiu. O processo não foi tranquilo. Rancor, ódio, amor, fúria, transtorno: tudo se misturava em sua cabeça. No entanto, ela tinha os netos. Corriam, brincavam, banhavam-se. Sua piscina sempre estava cheia: o germe da ruptura ainda não havia atingido seus filhos. Não tardou. Os filhos brigaram a respeito do pai. A respeito do dinheiro. Os netos cresceram. Não tomavam mais banho de piscina e nem comiam palha italiana. As goteiras persistiam em cair. Goteiras várias, rachaduras várias. O teto representa aquilo que poderia ter sido e não foi: a família dividida, os netos crescidos, a solidão. Em seu quarto, liga a televisão e cala. Cala para não chorar, cala para não gritar, cala para não morrer. Enquanto isso, as goteiras pingam, as rachaduras se expandem, os marimbondos procriam, a pintura se esvanece. Mas a televisão grita, discurso coagido, entorpece e silencia as mágoas. É ritmo, é ritmo de festa.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Manual do Sabotador: Comendo sozinho em restaurantes

Vamos ao primeiro manual do Sabotador: como comer sozinho em um restaurante e sair bem da situação. Muitas vezes o Sabotador se vê sozinho, sem companhia e, sem saco para cozinhar, quer ir comer alguma coisa, mas também não quer que as pessoas o julguem como um solitário, hermitão na cidade grande (apesar de que isso possa ser possível).
A primeira coisa que devemos observar é o dia da semana. Durante a semana, é comum pessoas comerem sozinhas, principalmente durante o almoço. As coisas, portanto, ficam mais fáceis. Vamos lá.
Durante a semana, escolha um lugar perto de escritórios, onde o movimento durante o almoço é grande. Se você não trabalhar/estudar no Centro, ainda assim existem várias regiões com alta concentração de escritórios, tais como Botafogo, Ipanema, Copacabana, etc. Chegue cedo, evitando o horário de almoço normal dos executivos, por volta das 13h-14h. O ideal é chegar as 12h30. Peça uma mesa de dois, mas já avise que só você irá comer. Se não houver uma mesa para dois (o que é raro durante a semana), peça para que uma mesa de quatro seja dividida. Sentar sozinho numa mesa para quatro pessoas é muito ruim e o sentimento de solidão só piora. Já acomodado, peça rapidamente o prato e a bebida. Dessa forma, o Sabotador demonstrará que está com pressa, mesmo que isso não seja verdade, o que justifica o fato de estar indo sozinho ao restaurante. Feito o pedido, vem a parte fundamental: saque algo para ler. Durante a semana, fica mais fácil pegar alguma coisa da faculdade ou do trabalho para ler e isso será tomado como algo normal. Dependendo de como o fizer, o Sabotador passará uma imagem ideal. Coma, beba e peça a conta e, é claro, um café expresso. Pronto, você sobreviveu a um almoço desacompanhado.
Agora, nos finais de semana, a coisa complica mais. Domingo, por exemplo, é um dia no qual famílias inteiras vão almoçar juntas, grupos de amigos, etc. Daí decorre a dificuldade em encontrar um restaurante que tenha mesa só para dois. Da mesma forma como durante a semana, procure se adiantar ao movimento: chegue no lugar por volta das 13h-13h30. Se não houver mesa para dois, não se acanhe e se sente numa mesa para quatro e não se perturbe se, passado algum tempo, houver fila e as pessoas te fuzilarem o olhar. Problema delas, quem mandou não fazer reserva para 10 pessoas? Pois bem. No final de semana, levar algo de estudo para ler não pega muito bem. Assim, passe numa banca de jornal antes e compre o jornal do dia. Isso irá te distrair enquanto espera a comida chegar e evita que você fique se sentindo mal por estar ocupando toda aquela mesa, enquanto outras pessoas esperam vagar um lugar. Se encontrar algum conhecido (o que é bem provável de acontecer), diga que foi comer rápidamente, pois vai encontrar um pessoal depois. Ou que todos de sua casa viajaram, e você não estava com vontade de cozinhar. Isso servirá para despistar...

É isso, o próximo manual será de como ir ao cinema e não entrar em depressão por fazê-lo sozinho.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

O Pequeno Manifesto do Sabotador

Todo sabotador deve saber algumas pequenas coisas, tais como as listadas abaixo. Atentem que essa enumeração não é exaustiva, até porque a História não acabou, como previra Fukuyama.

1- Observação exógena: saber olhar o outro, mas não saber olhar a si mesmo.
2- Crítica: criticar tudo, inclusive a si mesmo.
3- Perfeição: o perfeccionismo é a faca de dois gumes de qualquer Sabotador.
4- Literatura: dá a substância para a crítica e para a observação.
5- Conformismo: criticar é legal, mas deixe estar.
6- Solidão: influencia na percepção exterior, tão cara ao Sabotador.
7- Pessimismo/Niilismo: corolário da crítica/observação, sabe-se que não há razão para melhoras.
8- Química: álcool e nicotina são condição sine qua non para a labuta do Sabotador.

Esse é um pequeno intróito ao manifesto do sabotador. Como se vê, não há definição ou delimitação de um campo de estudo. Faremos o possível para abordar tópicos variados, mas a função da linguagem prevalente não será a referencial, e sim a emotiva. A incessante busca empreendida pelo Sabotador em busca do Eu norteará as abordagens que serão feitas sobre assuntos outros. É o começo...